sábado, 14 de maio de 2011

‘Todo mundo deve se beijar’

coluna 4 de maio

"Você é um dos homens mais éticos que eu conheço” - com a frase de Rosamaria Murtinho para Manoel Carlos, sob aplausos intermináveis, terminou o encontro ‘Cenas de um autor’, do Instituto Montenegro e Ramam, no Solar de Botafogo. Se o encontro acabou assim, Caco Ciocler – o ator convidado para fazer entrevista informal – apresentou Maneco três horas antes dizendo “sempre me disseram que ele é um fofo! E todo mundo estava certo. Está aí o fofo”.

E entra o autor perguntando para o ator onde colocava a bengala “mas não muito longe, porque dependendo do seu comportamento...”, brincou com Caco balançando o acessório em sua direção. “Quando me falaram que eu seria entrevistado por Caco, foi determinante. Ele é um querido amigo e com certeza vai estar na minha próxima novela”, dizia Maneco ainda antes de subir ao palco.

O mestre fará, até 2016, duas minisséries e a novela propriamente dita para a Rede Globo, mas está mais interessado em escrever poucos capítulos. “Até lá, já devo ter 150 anos, mas tudo bem. A gente só para quando morre. Geralmente me perguntam, no fim de alguma novela, se vou fazer outra. Estou tão farto naquela hora que digo não. É só puxar no Google que todos os autores dizem o mesmo”, conta, reclamando do excessivo número de capítulos de um folhetim das nove, atualmente entre 180 e 200.

“A novela ficou mais extensa para ser paga, até mesmo pelo aumento de elenco e cenário. Antigamente, tínhamos 15 atores e hoje chego a criar 60, 80 personagens”, suspirou. Maneco adianta a próxima produção, uma macrossérie de 50 capítulos, baseada no romance ‘Vale Abraão’, da portuguesa Bessa-Luis, cujos direitos foram comprados pela Globo há 10 anos. “É uma espécie de ‘Madame Bovary’ contemporânea. Eu sou fascinado pelo romance de Gustave Flaubert”, conta, dizendo que a trama deve entrar ao ar depois do remake ‘O Astro’, de Janete Clair.

Ele diz que tem na manga uma minissérie sobre Cauby Peixoto e Ângela Maria. “Assim que terminei Maysa, falei para o Jayme (Monjardim, diretor) que gostaria de fazer, mas não tive retorno. É um crime a TV não ter mais programas musicais. Sinto falta de ver Caetano, Chico, Nana Caymmi”.

No quesito elenco, Maneco diz que sonha com Lilia Cabral para ser sua próxima Helena. “Ela vai fazer a novela do Aguinaldo Silva, ‘Fina Estampa’. Eu tenho que fazer uma protagonista para ela, que sempre foi antagonista das mais importantes. Quando eu decidi assassinar a Lilia em ‘Laços de Família’, ela me ligou chorando e dizia que não queria morrer, mas eu tinha que deixar a Deborah Secco órfã e a participação dela é comentada até hoje”.

Para o mestre, Lilia e José Mayer estarão sempre garantidos em seus folhetins, conhecidos por sempre lançar novos nomes na dramaturgia. “Nunca recusei ninguém por razões pessoais. E tem sempre alguém que me lembra daquele ator que está sumido e recebo muitos e-mails quando estou na produção de uma nova história. Quando dei o papel para o Reynaldo Gianecchini em ‘Laços de Família’, foi uma espécie de teste lá em casa. Tinha oito amigas da minha filha Julia (Almeida, atriz), e, quando ele entrou, algumas aplaudiram, outras desmaiaram. Queria um galã que entusiasmasse as meninas e funcionou. Ele se saiu bem, mas como ele melhorou depois, né? Sem aquele papel, talvez Gianecchini nunca teria sido ator, assim foi Carol Castro e Mel Lisboa”.

Na plateia, um mix de fãs, estudantes de teatro, atores como Ângela Vieira e Daysi Lúcidi, a bailarina Ana Botafogo e o dançarino Carlinhos de Jesus, além da mulher de Maneco, Beth Almeida, que a toda hora era consultada pelo autor, que dizia que ela era seu “ponto”, aquele fone em que alguns atores geralmente recebem instruções dos diretores. Perguntado sobre a ausência de beijos gays na trama, o mestre foi definitivo: “Acho o assunto uma bobagem e não faz falta alguma. Criaram uma onda em cima disso tão inútil e boba. O que acho mesmo é que todo mundo deve se beijar”.

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